NOVOS MODELOS DE EMPRESA AGRO-INDUSTRIAL
E POLITICAS PÚBLICAS
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Bacic, M.; Carpintero, J.N.; Costa-Lopes, C. e Ortega, E.

Instituto de Economia e Faculdade de Engenharia de Alimentos.  

Universidade Estadual de Campinas.

(In Anais do II Encontro Nacional de Energia no Meio Rural, Campinas, UNICAMP, 1988. p. 70-76.)


Introdução:

Comentaremos em este trabalho uma proposta de pesquisa que esta em andamento. Esta pesquisa tem como ponto de partida a realidade atual por todos criticada.

Tem como objetivo o estudo de modelos de produção agro-industrial integrados com os ecossistemas locais, contribuindo com a discussão e solução dos problemas do caos urbano e da degradação ambiental, permitindo assim a conquista de um maior grau de bem-estar à população.

Espera-se abrir um campo de pesquisa interdisciplinar, inovador e comprometido com as mudanças sociais, que acompanhe os acontecimentos que se dão fora da universidade e que nos momentos oportunos em que se requeira sua colaboração possa dar uma contribuição a analise das perspectivas de desenvolvimento, na proposição de novos modelos de empresa agroindustrial e de políticas publicas.


Situação atual:

Nos últimos anos se tornaram evidentes os problemas gerados pelo modelo de crescimento econômico adotado em nosso país. Este modelo propiciou uma rápida "modernização" da agricultura brasileira, através de sua articulação com a indústria, gerando setores "competitivos" baseados na monocultura, na grande propriedade e nas culturas para exportação.

Ao mesmo tempo sérios problemas foram gerados, e podem ser analisados em dois níveis:


A diminuição da população economicamente ativa na agricultura produziu um explosivo processo de migração para as cidades, o qual acompanhado pela introdução de tecnologias poupadoras de mão de obra na indústria gerou uma tendência crônica ao aumento do desemprego e de subemprego nas áreas urbanas. Esta situação agravada pela perversa distribuição da renda levou a uma deterioração do padrão de vida da população, em face dos problemas de insuficiente abastecimento de produtos alimentares, piora das condições de saúde, transporte, moradia e saneamento  básico, caracterizando-se uma situação de caos urbano. 

As saídas desta situação têm sido pensadas normalmente entre dois extremos:


Consideramos, apoiando-nos em obras como as do Prof. Ignacy Sachs, que nenhuma destas visões poderá oferecer uma saída adequada da situação vigente.

E necessário repensar o modelo de crescimento de forma a colocar a agricultura e a indústria inseridas harmonicamente nos ciclos ecológicos gerais e ao mesmo tempo utilizar a ciência para manter elevados os níveis de produtividade compatíveis com as necessidades humanas.


Características do modelo

Para atender a esta preocupação é necessário pensar um modelo de desenvolvimento com as seguintes características:


As unidades econômicas adaptáveis a estas características seriam basicamente agroindústrias, nas quais a produção de alimentos e de outros produtos primários estaria integrada com uma ou varias etapas de processamento industrial e a geração de energia local atenderia boa parte do consumo energético, o que possibilitaria a manutenção do funcionamento do sistema quando houvesse um corte das fontes externas. A unidade supriria, parcial ou totalmente, as necessidades locais de bens de consumo (alimentos, vestuário, móveis, construção, serviços ambientais, etc.) e o excedente exportado do sistema gerará capacidade de troca com o exterior.

A competitividade face ao meio é uma condição necessária para a manutenção e reprodução destas unidades. Neste sentido o modelo a ser desenvolvido deve propiciar o máximo aproveitamento das fontes e dos fluxos energéticos, o trabalho cooperativo gerador de um resultado superior a somatória dos esforços envolvidos (auto-interação) e a manutenção de trocas com o meio, como forma de  maximizar os fluxos energéticos. A produção de serviços será também considerada na construção do modelo.

Este tipo de empreendimento ao permitir a fixação do homem no campo e ao minimizar os impactos ecológicos negativos, aliviaria a pressão sobre as cidades e sobre os serviços públicos. Diversos grupos em vários países já estão trabalhando em experiências concretas, que atendem as características de sistemas de produção rural integrada de alimentos, energia e serviços ambientais, como China, Israel, Itália, Cuba e Alemanha. O Brasil ao considerar a reforma agrária deveria incorporar estas experiências para implantar unidades de produção economicamente viáveis, capazes de maximizar os fluxos internos de materiais e energia.

Capacitação:

Para desenvolvimento desta proposta é necessária a capacitação em vários campos:


Contribuições possíveis:

Podemos imaginar que a proposta de trabalho poderá dar frutos de diversas formas:


Em resumo, propomos a realização de experimentos à nível local de criação de capital científico e tecnológico comprometido com a retroalimentação a sociedade local e ao sistema universitário, visando o aumento da produtividade através do uso de novos paradigmas para a produção do saber e da elaboração de projetos que viabilizem essa interação, procurando promover a reflexão universitária, indispensável à reestruturação da  instituição de ensino superior no sentido de coloca-Ia ã serviço de uma coletividade maior, que poderá vir a valoriza-Ia como um instrumento de transformação, reconhece-Ia como seu patrimônio e considerá-la como uma instituição de utilidade pública.


Bibliografia

Sachs, Ignacy (1986). Ecodesenvolvimento: Crescer sem destruir.  Editora Vértice, São Paulo.

Odum, Howard (1976). Energy basis for man and nature. McGraw-Hill Book Company, New York.