José A.
Lutzenberger, Porto Alegre, Brasil, setembro de 2001.
Na
controvérsia reinante atualmente em torno da biotecnologia, como vem sendo
aplicada à agricultura, existe muita desinformação resultando em preocupação
desnecessária em algumas áreas e uma muito mais séria falta de preocupação em
outras.
É preciso
olhar o quadro completo para poder entender porque e como a produção agrícola é
cada vez mais dominada por corporações gigantes. Nos dias de hoje, o quase
total controle da biotecnologia pelas grandes empresas é apenas a culminação de
um processo que vem crescendo nos últimos 75 anos. Vamos analisar o panorama da
agricultura segundo a perspectiva atual.
A
agricultura foi inventada entre 10 e 15 mil anos atrás, e nos últimos 2 ou 3 mil anos evoluiu para belas e sustentáveis
culturas camponesas, localmente adaptadas e sustentáveis, em muitas regiões do
mundo, especialmente na Europa, Ásia, México, América Central, Andes, e em
algumas regiões na África.
Desde o
início da colonização, os agricultores norte-americanos, apesar de muitos
desastres, tais como as tempestades de poeira, também desenvolveram belos
sistemas agrícolas, que estavam se tornando sustentáveis. Muitas dessas
culturas ainda estavam intactas até o final da Segunda Guerra Mundial. As
poucas remanescentes estão agora sendo desestruturadas.
A
indústria tem conseguido sucessivamente se apropriar de uma parte crescente das
atividades dos agricultores, tomando deles tudo o que permite a ela a obtenção
de lucros seguros e deixando-lhes os riscos - o risco de má colheita devido a mau tempo e o risco de
perder dinheiro devido à crescente dependência de insumos agrícolas que devem
ser adquiridos a preços crescentes e tendo que vender seu produto a preços cada
vez mais baixos.
O
argumento convencional em favor dos métodos da agricultura moderna é que eles
constituem a única maneira eficiente de resolver o problema da fome mundial e
da alimentação das massas que ainda estão por vir com a explosão populacional.
Mas isto é uma ilusão.
É certo
que os métodos agrícolas tradicionais poderiam ser aperfeiçoados com o
conhecimento científico atual de como as plantas crescem, da estrutura do solo,
da química e vida do mesmo, bem como do metabolismo das plantas e assim por
diante. Mas o aperfeiçoamento não precisa ser direcionado para monoculturas
gigantescas, altamente mecanizadas e com toda a parafernália dos fertilizantes
comerciais e venenos sintéticos, com a produção agrícola sendo transportada
pelo mundo todo. A grande monocultura foi uma invenção do colonialismo.
Os poderes
coloniais não podiam extrair muito do campesinato tradicional com suas safras
altamente diversificadas, para a subsistência e direcionadas para os mercados
regionais e locais.
Eles queriam grandes quantidades de algodão, açúcar, café, chá, cacau e
outros. Isto conduziu à marginalização de milhões de pessoas e também esteve na
raiz do tráfico de escravos da África para as Américas, uma das maiores
calamidades da história humana.
Mas, o
problema fundamental com a agricultura moderna é que ela não é sustentável.
Mesmo se fosse tão produtiva quanto é afirmado, o desastre seria apenas
postergado e seria então muito pior. Se quisermos alimentar as massas
crescentes - é claro que deveremos encontrar também maneiras de controlar
nossos números - teremos de desenvolver métodos de produção agrícola
sustentável.
Com muitas poucas exceções os camponeses tradicionais desenvolveram
métodos sustentáveis. Os agricultores chineses, por exemplo, por três mil anos
obtiveram alta produtividade dos seus solos sem comprometer a fertilidade. Ao
contrário, eles desenvolveram e mantiveram uma fertilidade máxima do solo.
Os
agricultores regenerativos modernos estão aprendendo a se tornar cada vez mais
sustentáveis, com colheitas ótimas e métodos localmente adaptados, enquanto
recuperam e mantém a biodiversidade nos seus cultivares e na paisagem
circundante. Vamos chamá-los agricultores regenerativos, e não
biológicos, orgânicos ou alternativos. Quando se trata de vida, seja bom ou
mau, tudo é biológico, é orgânico, mesmo grandes massacres. Alternativo apenas
significa diferente, poderia ser pior. Mas regenerativo significa
regeneração do que tem sido perdido ou destruído.
A
agricultura moderna tem se desligado da lógica dos sistemas vivos naturais.
Todos os ecossistemas naturais possuem retroação interna automática que, desde
o começo, tal como quando um novo pedaço de terra estéril, digamos, a encosta
de um vulcão, é conquistado, faz as condições ambientais melhorarem, em
sucessão, até que um clímax de atividade biológica máxima e sustentável seja
atingido. Nossos ecossistemas de agricultura moderna fazem exatamente o oposto,
ao impor retroações negativas (agressão química e mecânica ao solo) que
gradualmente degradam o meio ambiente e empobrecem a biodiversidade.
Infelizmente,
a agricultura moderna obtém sucesso exaurindo o solo e substituindo a
fertilidade perdida por nutrientes que vêm de fora. Fertilizantes comerciais,
tais como fosfatos provém de minas que estarão brevemente esgotadas, as minas
de potássio são mais abundantes, mas nitrogênio, o mais importante elemento na
produtividade da agricultura moderna, embora venha da atmosfera, uma fonte
virtualmente inesgotável e para lá acaba voltando, é obtido pela síntese de
amoníaco Haber-Bosch, um processo que consome enormes quantidades de energia,
principalmente energia de combustíveis fósseis. Mesmo quando é energia
proveniente de hidroelétricas, trata-se de eletricidade que poderia estar
economizando combustíveis fósseis em outro lugar. Todos os outros insumos, tais
como os agrotóxicos e a cada vez mais pesada maquinaria, são também grandes
consumidores de energia.
Mas a
agricultura, se a olharmos de uma perspectiva holística, ecológica, é um
esquema para colher energia solar via fotossíntese. Enquanto todas as formas de
agricultura tradicional têm um balanço de energia positivo, a agricultura
moderna perverte até mesmo este aspecto fundamental. Em sua maior parte, tem
balanço de energia negativo.
Quase
todas as suas operações supostamente de alta produtividade requerem mais
energia fóssil nos insumos do que está contido em seu produto. Para usar uma
metáfora adequada, isto tem se tornado como um poço de petróleo onde o motor
que aciona a bomba consome mais combustível do que ela pode extrair. Este tipo
de operação só pode sobreviver com subsídios...
Sustentam que a agricultura moderna é tão eficiente que apenas em torno
de 2% da população pode alimentar o total da população. Até a virada do século,
na Europa, nos Estados Unidos e na maioria dos países, quase 60% da população
trabalhava no campo. No final da última Guerra Mundial ainda era quase 40%.
Atualmente, nos Estados Unidos, menos de 2% da população trabalha na
agricultura. Na maioria dos países europeus o número está se aproximando aos
2%, visto que ainda continua a marginalização de agricultores. Agora, quando se
afirma que nas economias modernas somente 2% das pessoas podem alimentar a
população total, em comparação a 60 ou 40% no passado, isto é, ou uma ilusão
para os que acreditam ou uma mentira para os que sabem, baseada numa falsa
comparação.
No
contexto da economia, como um todo, o antigo campesinato era um sistema de
produção, manipulação e distribuição de alimento que também produzia seus
próprios insumos. A fertilidade do solo era mantida com esterco, rotação
de cultivos, plantas companheiras,
adubação verde, composto, cobertura morta e descanso da terra; as sementes eram
selecionadas do melhor de cada safra; animais de carga e tração supriam a
energia; os moinhos usavam vento ou água como fonte de energia. Tudo era
energia solar. A pouca manipulação ou beneficiamento que os alimentos
sofriam era feita na propriedade ou na aldeia, cujos artesãos também contavam
como população rural. O mesmo se aplicava aos utensílios, arados, enxadas,
carretas, etc... A maior parte da produção agrícola era entregue nas mãos do
consumidor na feira semanal. Em nossa língua sobra uma linda relíquia
daqueles tempos: segunda, terça, quarta-feira.
Mas o
agricultor moderno é apenas uma pequena engrenagem em uma enorme
infraestrutura tecnoburocrática que requer até mesmo legislação especial e
pesados subsídios. Comparado com seus antecessores que faziam quase tudo que
estava relacionado com a produção, processamento e distribuição de alimentos, ele
não é muito mais do que um tratorista e um espalhador de veneno.
Depois da
última Guerra Mundial, quando a Alemanha estava totalmente devastada, é verdade
que o Plano Marshall ajudou, mas, mais importante é que os habitantes das
cidades podiam ir ao campo e fazer "hamstern", isto é, trocar
qualquer coisa de valor, um relógio, um anel, por alimento. Os camponeses
tinham comida, tinham cereais, feijão, batata, verduras, frutas, leite, queijo,
frango, ganso, e muito mais.
Não seria necessária uma guerra hoje para colocar os agricultores
europeus em uma posição em que eles próprios teriam de fazer
"hamstern", mas onde?!
Nenhuma
bomba precisa cair. Um simples colapso na energia, no transporte,
especialmente na importação de fertilizantes minerais e ração para gado, no
sistema bancário e mesmo nas redes de computadores e comunicações, seria
suficiente. Espantoso, que os militares não pareçam estar preocupados.
Fundamentalmente, a segurança nacional depende de uma agricultura sadia e
sustentável.
O sistema
atual de produção e distribuição de alimentos (incluindo fibras e alguns outros
itens não comestíveis) começa nos campos de petróleo e todos os tipos de minas
para metais e outras matérias-primas, passa pelas refinarias, siderurgias e
plantas de alumínio, etc., a indústria química, a indústria de maquinaria, o
sistema bancário, o envolvente sistema de transporte (consumindo principalmente
combustíveis fósseis), computadores, supermercados, indústria de embalagens e
um totalmente novo complexo de indústrias que quase não existiam no passado - a
indústria de manipulação de alimentos que mais mereceria ser chamada de
indústria de desnaturação e contaminação de alimentos (com aditivos e resíduos
de agrotóxicos).
Se
quisermos comparar o agricultor de hoje com o tradicional, então todas as horas
de trabalho nas indústrias acima mencionadas e algumas outras, assim como
alguns serviços, tal como as empresas de "fast food" que, em inglês,
bem merecem o qualificativo de "junk food" (comida entulho), e
distribuição de alimentos, até onde elas direta ou indiretamente contribuem
para a produção, manipulação e distribuição de alimentos, precisam ser
adicionados.
Isto tudo
deveria até mesmo incluir as horas de trabalho que correspondem ao dinheiro
que, em outras profissões, precisa ser ganho para pagar os impostos que
financiam os subsídios. É significativo que a maior parte dos subsídios vai,
não para o agricultor, mas para o complexo industrial. O agricultor é sempre
mantido à beira da falência.
Um balanço
completo deste tipo certamente mostraria que, atualmente, numa economia
moderna, também em torno de quarenta ou mais por cento de todas as horas de
trabalho vão para a produção, manipulação e distribuição da comida. Mas os
economistas convencionais de hoje, aqueles que nossos governantes escutam, em
sua visão não holística, colocam as fábricas de tratores e colheitadeiras com a indústria de
maquinária, as fábricas de fertilizantes químicos e agrotóxicos com a indústria
química e assim por diante, como se não tivessem nada a ver com alimentos. O
que temos, então, com umas poucas exceções, é redistribuição de tarefas e
certas formas de concentração de poder nas grandes corporações, e não mais
eficiência na agricultura.
Vamos
olhar com mais detalhe para alguns dos aspectos decisivos: quase sempre o
moderno sistema de produção e distribuição de alimentos, além de não ser mais
produtivo em termos de eficiência de mão de obra, tampouco é mais eficaz em
termos de produtividade por hectare. Em muitos casos, tais como na criação
intensiva de animais, ele é mesmo destrutivo, consumindo mais alimento do que
produz.
No sul do
Brasil, durante a última metade do século XX a grande floresta subtropical
do Vale do Uruguai foi derrubada e queimada com a quase total destruição
da madeira, para abrir espaço para a monocultura de soja. Isto não foi
feito para aliviar o problema da fome nas regiões pobres do Brasil, mas para
enriquecer uma minoria (pessoas sem tradição agrícola) com a exportação para o
Mercado Comum Europeu para alimentar gado. As plantações de soja estão entre as
mais modernas - grandes, altamente mecanizadas e com os habituais insumos
químicos. Essas plantações não são, de maneira alguma, atrasadas quando
comparadas ao mesmo tipo de plantação nos USA. No nosso clima subtropical o
agricultor tem a vantagem suplementar de poder plantar trigo, cevada, centeio
ou aveia, mas também de fazer feno e silagem no inverno sobre o mesmo solo, mas
poucas vezes o faz.
Comparado
ao que os nossos colonos faziam em solos similares, a produtividade é baixa,
raramente mais do que três toneladas de grãos (total, verão e inverno) por
hectare. O camponês, que produzia para alimentar a população local,
facilmente produzia 15 toneladas de comida por hectare, diversificando com
mandioca, batata-doce, batata inglesa, cana-de-açúcar e grãos, mais verduras,
uva e todos os tipos de frutas, feno e silagem para o gado, além de porcos e
galinhas.
Mas ele
não produzia PIB (produto interno bruto). O PIB só reflete fluxo de dinheiro,
não leva em conta auto-suficiência e mercado local. A conta do PIB interessa o
banqueiro, o governo, as grandes corporações transnacionais, nada têm a ver com
o bem estar das pessoas, da população. Quando estatísticas das Nações Unidas
declaram que quase a metade da população mundial vive com menos de dois dólares
por dia, isso leva a falsas conclusões. Ninguém viveria com dois dólares por
dia se tivesse que comprar sua comida, roupa, utensílios no supermercado ou
Shopping Center. No período áureo de nossa colonia no Rio Grande do Sul,
anos trinta, o colono podia não ter um tostão no bolso, mas sempre tinha mesa
farta, vivia muito bem.
Não
obstante esta realidade, a política agrícola oficial tem sempre apoiado os
grandes às custas dos camponeses. Centenas de milhares deles tiveram que
desistir e partir para as cidades, freqüentemente para as favelas, ou mais para
o norte em direção à floresta Amazônica. Uma devastação tremenda foi feita com
dinheiro do Banco Mundial no estado de Rondônia, e os pequenos agricultores que
lá foram assentados, não sabendo como cultivar nos trópicos e sem apoio, em
geral fracassam, deixando para trás devastação, enquanto novas áreas da
floresta são desmatadas.
No Brasil
central, o cerrado, o equivalente sul americano da savana africana, está hoje
sendo quase totalmente destruído para dar lugar a mais plantações de soja, uma
das quais cobrindo centenas de milhares de hectares contíguos. Na sua
biodiversidade o cerrado é tão valioso quanto a floresta tropical, e
eventualmente, até mais.
Num
exemplo concreto também se argumenta que os índios camponeses em Chiapas,
México, que estão agora lutando pela sua sobrevivência, rebelando-se contra o
NAFTA (o Mercado Comum Norte Americano), são atrasados, eles produzem
somente duas toneladas de milho por hectare comparado com seis nas plantações
mexicanas modernas. Mas isso é somente parte do quadro, as plantações
modernas produzem seis toneladas por hectare e é só. Mas os índios produzem uma
colheita mista, entre seus pés de milho, que também servem para suporte de
variedades de feijão que são trepadeiras, eles plantam legumes, abóbora,
morangas,batata doce, batata inglesa,tomate e todo tipo de vegetais, frutas e
ervas medicinais. A partir do mesmo hectare eles também alimentam seu gado e
galinhas. Eles facilmente produzem quinze
toneladas de alimento por hectare e tudo sem fertilizantes comerciais ou
pesticidas e sem assistência dos bancos, governos ou corporações transnacionais.
A marginalização de tais pessoas é a continuação de um dos maiores desastres
dos tempos modernos. Ao chegar nas favelas das cidades terão de comprar comida
cultivada em monoculturas que são menos produtivas do que eram eles. Em última
análise existe então menos comida e mais pessoas para alimentar. Existe excesso
em alguns lugares e falta noutros. Freqüentemente sua terra é então tomada por
criadores de gado que raramente produzem mais do que 50 quilos de
carne/hectare/ano. Centenas de histórias similares poderiam ser contadas.
No caso de Chiapas, cada vale tinha sua língua e cultura diferentes. Acima de
todas as calamidades pessoais, quando a terra perde seus camponeses, temos genocídio
cultural!
No caso da
criação em massa de animais para carne e ovos, os métodos são absolutamente
destrutivos, muito mais alimento para humanos é destruído do que produzido. As
galinhas em seus tristes campos de concentração ou fábricas de ovos,
eufemisticamente chamadas de "granjas" são alimentadas com rações
"cientificamente equilibradas", consistindo de grãos de cereais,
soja, torta de óleo de palma ou de mandioca, muitas vezes com farinha de peixe.
Conhecemos casos no Brasil onde sua ração contém leite em pó, proveniente do
Mercado Comum Europeu... Isto as coloca então numa posição de competição com os
humanos, nós as alimentamos com nossas lavouras. Um absurdo total se o
propósito é contribuir para resolver o problema da fome mundial.
Na
agricultura tradicional as galinhas comiam insetos, minhocas, esterco, ervas,
capim e restos de cozinha e de colheita, desta maneira aumentando a capacidade
de sustento das terras dos agricultores para humanos. Agora elas a diminuem.
Nestes
esquemas, a razão de transformação da ração em alimento humano é próxima de
vinte para um. Precisa-se levar em consideração que metade do peso dos animais
vivos - penas, ossos, intestinos - não é consumida por nós e também é preciso
considerar que as rações desidratadas e concentradas com um alto consumo de
energia até o máximo de 12% de água, enquanto a carne contém até 80%. Nos
galpões de engorde, as operações mais eficientes usam em torno de 2,2Kg de
ração para obter 1Kg de peso vivo, metade da qual é alimento humano. Então 2,2
para 1 se torna 4,4 para 1. Corrigindo o conteúdo de água: 4,4 vezes 0,88 e 1
vez 0,2 obtém-se 3,87 para 0,2, igual a 19,36 para 1.
Quando se
trata de gado bovino confinado, como nos "feed lots" de Chicago, a
relação é umas cinco vezes pior.
Mais
recentemente, algumas de nossas granjas "aperfeiçoaram" um pouco esta
razão incluindo na ração rejeitos de galinhas abatidas antes, desta maneira
forçando-as ao canibalismo!.
Outro aspecto absurdo disto tudo: as rações “cientificamente
equilibradas” não contêm nada verde, o mesmo acontece com os porcos. Mas
galinhas e porcos são vorazes consumidores de ervas, gramíneas, frutos, nozes e raízes.
Em nossos
experimentos com agricultura sustentável na Fundação Gaia também os alimentamos
com plantas aquáticas, com grande sucesso – animais saudáveis, sem
antibióticos, sem drogas, sem veterinários.
Além disso, nos campos de concentração de galinhas e fábricas de ovos,
assim como nos modernos calabouços de porcos, as pobres criaturas vivem sob
condições de extremo estresse.
É tempo de
acabar com a mentira de que apenas a agricultura promovida pela tecnocracia
pode salvar a humanidade da inanição. O oposto é verdadeiro.
É preciso
uma nova forma de balanço econômico que, a medida que soma o que
é chamado "produtividade" ou
"progresso" na agricultura, também deduza todos os custos: as
calamidades humanas, a devastação ambiental, a perda da diversidade biológica
na paisagem circundante e a ainda mais tremenda perda de biodiversidade em
nossos cultivares.
Este
segundo aspecto será agora enormemente agravado com a biotecnologia dominada
pelas grandes empresas, como veremos mais adiante. E, mais importante e
decisivo, a não sustentabilidade disto tudo. Temos o direito de agir como se
fossemos a última geração?
No caso de
operações industriais envolvendo galinhas é fácil ver como tais métodos
destrutivos se desenvolveram. Estou falando do que observo no sul do Brasil - o
Brasil é um grande exportador de carne de galinha, principalmente para o
Oriente Médio e Japão.
A partir
de esquemas muito simples, onde pequenos empresários individuais confinavam
galinhas num galpão e as alimentavam com milho, o sistema coalesceu e cresceu
até um ponto onde, atualmente, existem em torno de meia dúzia de companhias
muito grandes e umas poucas pequenas.
Os grandes
abatedouros abatem e processam até centenas de milhares de galinhas por dia.
Eles operam de acordo com regras impostas por eles, chamadas por eles
"integração vertical". O "produtor" assina um contrato onde
aceita comprar todos os seus insumos, pintinhos, ração e drogas da companhia.
Mesmo que ele seja um agricultor e tenha uma grande produção de grãos, ele está
proibido de usá-la para alimentar suas galinhas.
Ele é
obrigado a comprar a ração pronta, mas pode vender o seu milho para a fábrica de ração que pertence à mesma
companhia proprietária do abatedouro e da incubadeira que produz os pintos.
Estes operam um tipo diferente de campo de concentração de galinhas onde os
prisioneiros são galos e poedeiras, um galo para cada dez galinhas. As galinhas
não estão em pequenas gaiolas como nas fábricas de ovos, elas podem se mover
livremente dentro do galpão e pular para dentro de amplos ninhos para pôr os
ovos. Nas operações de esteiras rolantes das fábricas de ovos, chamadas
baterias, as pobres poedeiras estão confinadas, três em cada gaiola, sobre uma
grade de arame e os ovos rolam para fora. Os pintos produzidos nestas
incubadeiras não são mais de raças tradicionais de galinhas, eles são de marcas
registradas e são híbridos. Assim como o milho híbrido, não pode ser
reproduzido com manutenção de características raciais.
Após
comprar todos os seus insumos da companhia com a qual assinou contrato, ele
poderá vender somente para a mesma. O produtor não é autorizado a vender a
empresas concorrentes, estas não comprariam. Assim, ele pode ter a ilusão de
ser um pequeno empresário autônomo, mas sua situação real é a de um operário
com horas de trabalho ilimitadas, sem fins-de-semana, feriados nem férias e
ainda tem que pagar sua própria previdência social. Se a grande companhia
trabalhasse com empregados de carteira assinada, ela não poderia fazê-lo, seria
muito caro e muito arriscado. Desta maneira deixam todos os riscos com o
produtor: perda por doenças ou custos adicionais com drogas e antibióticos,
choque de calor, um desastre comum durante os dias quentes de verão, quando
centenas ou milhares de galinhas morrem nos abarrotados e mal ventilados
galpões, e perdas durante o transporte. As galinhas que morrem nos caminhões da
companhia no trajeto ao abatedouro são também descontadas.
Os seus
lucros também diminuem constantemente com o crescente preço dos insumos e a
queda do faturamento com as vendas. A margem do produtor é tão apertada que,
mesmo se tudo for bem, mas se for preciso alimentar os animais mais alguns
dias, o lucro pode evaporar ou mesmo se transformar em perda. Esta é uma
ocorrência comum. O abatedouro agenda suas viagens de coletas de galinhas
prontas de acordo com sua própria conveniência. Mas se a companhia obtém
lucros excepcionais no mercado de exportação, nada vai para o produtor...?
Portanto,
os campos de concentração de galinhas não têm nada a ver com maior
produtividade para ajudar a salvar a Humanidade da inanição -de fato, eles
contribuem ao problema - mas eles concentram capital e poder pela criação de
dependência. Estes métodos não foram inventados pelos agricultores. É
impensáveis que um agricultor em uma
cultura camponesa sadia tivesse a idéia de alimentar massissamente suas
galinhas com grãos, a menos que fossem grãos estragados, e isolá-las de sua
fonte natural de alimentos, desta maneira desperdiçando parte da capacidade de
sustentação do solo para humanos, destruindo ao mesmo tempo parte de sua
colheita.
Estes
métodos também não são resultado concatenado de uma conspiração pela
tecnocracia. Tais esquemas crescem naturalmente a partir de uma
"semente" inicial que pode ter tido uma intenção completamente
diferente. Neste caso, como foi na agroquímica também, era o esforço de guerra.
A conspiração cresceu depois ao longo do tempo. Durante a última Guerra
Mundial, o governo americano iniciou o sistema de subsídios para a produção de
grãos, o qual conduziu a enormes excedentes. Assim, as autoridades da
agricultura procuraram "consumo não humano" para os grãos.
“Integração
vertical" é somente um estágio momentâneo no processo de concentração de
poder. Em breve eles encontrarão maneiras de banir - por meio de
legislação especial - a criação de galinhas soltas (caipiras) por agricultores
independentes. Já foi tentado, sem sucesso, mas, por dispositivos legais
especiais, conseguiu-se tornar muito difícil para pequenos agricultores a venda
de ovos no mercado aberto.
No caso do
milho híbrido, também não existia conspiração no início, ela veio
mais tarde. Geneticistas descobriram que pelo cruzamento de duas variedades
superpuras de milho - variedades obtidas após oito a dez gerações de autofecundação
- se obtém plantas de alta produtividade e uniformidade perfeita. Deve ter sido
uma decepção quando descobriram que as variedades não eram estáveis.
Após ressemeadura, as variedades desagregam de acordo com as leis de Mendel. A
nova colheita era caótica - pés de milho pequenos e grandes, uma espiga, muitas
espigas, cores, formas e qualidades de grãos diferentes. Mas, do ponto de
vista do vendedor de sementes, era uma verdadeira vantagem! O agricultor não
mais poderia guardar sua própria semente, tinha que comprar sementes novas a
cada ano. O vendedor não precisava sequer da proteção de uma patente.
Felizmente
na maioria dos cultivos, especialmente grãos como trigo, cevada, centeio e
aveia, este tipo de hibridização ainda não é economicamente viável para os
geneticistas. Eles estão tentando com todas as culturas que podem. Funciona com
galinhas. No sul do Brasil foi necessário fundar uma associação com o
objetivo de preservar as raças tradicionais de galinhas. A maioria está agora
em perigo de extinção. Algumas já se foram. Somente as cepas registradas de
galinhas híbridas não estão ameaçadas (enquanto durar a loucura dos campos de
concentração de galinhas e fábricas de ovos). Quanto ao milho, quase todas
as variedades tradicionais se foram.
Se um agricultor quer plantar uma delas não ganha o crédito do banco.
Apenas as variedades "registradas" são aceitas.
Atualmente,
a manipulação genética direta, chamada biotecnologia, que opera ao nível de
cromossomo, permite que o especialista assuma o controle, tirando o do
agricultor. Mas, como a maioria dos produtos-resultado da manipulação genética
direta não desagregam na reprodução, como no caso dos híbridos naturais, é
preciso patente. Retornaremos a este assunto.
Vejamos como nasceu a agroquímica Até final dos anos quarenta a
pesquisa em agricultura visava soluções biológicas. A perspectiva era
ecológica, embora mal se falasse em ecologia. Se esta tendência tivesse podido
continuar, teríamos hoje muitas formas de agricultura sustentável, localmente
adaptadas e altamente produtivas.
Começando nos anos cinqüenta a indústria conseguiu fixar um novo
paradigma - nas escolas, na extensão e pesquisa agrícolas. Vamos chamá-lo paradigma
NPK+V. NPK corresponde a Nitrogênio, Fósforo, Potássio, o V significa
veneno.
Os
fertilizantes comerciais se tornaram um grande negócio depois da primeira
guerra mundial. Logo no começo da guerra, o bloqueio Aliado cortou o
acesso dos alemães ao salitre chileno, essencial para a produção de explosivos.
O processo Haber Bosch para fixação de nitrogênio a partir do ar, mencionado
acima, era conhecido mas ainda não tinha sido explorado comercialmente. Os
alemães montaram então uma enorme capacidade de produção e conseguiram lutar
por quatro anos. O que seria o mundo se este processo não tivesse sido
conhecido? A primeira guerra mundial não teria realmente se desencadeado, não
teria acontecido o Tratado de Versalhes, e portanto não teria havido Hitler...!
Como uma tecnologia pode mudar o curso da história!
Quando a
guerra acabou, havia enormes estoques e capacidade de produção mas não havia
mais grande mercado para explosivos. A indústria então decidiu empurrar
fertilizantes nitrogenados para a agricultura. Até então os agricultores
estavam bastante satisfeitos com seus métodos orgânicos de manutenção e aumento
da fertilidade do solo. O guano e o salitre chileno eram usados de maneira
muito limitada, principalmente em cultivos muito especiais, especialmente em
jardinagem intensiva. Os fertilizantes nitrogenados na forma de sais quase
puros e concentrados, fertilizantes à base de nitrato e amônia, de certa forma
viciam, quanto mais se usa mais se precisa usar. Logo se tornaram uns grandes
negócios. Então a indústria desenvolveu um espectro completo, incluindo
fósforo, potássio, cálcio, micro-elementos, mesmo sob a forma de sais
complexos, aplicados na forma granulada, algumas vezes de avião.
A Segunda
Guerra Mundial deu um grande empurrão para uma pequena e quase
insignificante indústria de pesticidas e realmente a projetou para a produção
em grande escala. Hoje o equivalente a centenas de bilhões de dólares em
venenos são espalhados sobre todo o planeta.
Durante a
Primeira Guerra Mundial gás venenoso foi usado apenas uma vez, com efeitos
devastadores para ambos os lados, e por isso nunca mais foram empregados.
Durante a Segunda Guerra Mundial os gases tóxicos não foram aplicados em
batalha, mas muitas pesquisas foram desenvolvidas. Bayer, entre outros, estava
neste jogo. Ela desenvolveu os ésteres do ácido fosfórico. Depois da guerra
eles tiveram uma grande capacidade de produção e estoques e concluíram que o
que mata gente também mata os insetos. Fizeram novas fórmulas e as
comercializaram como inseticida.
O DDT era
conhecido como uma curiosidade de laboratório. Quando Müller, na Geigy,
descobriu que matava insetos sem, aparentemente, afetar as pessoas, alertou as
forças armadas americanas que estavam sofrendo com a malária no Pacífico,
enquanto lutavam com os japoneses. Usaram-no de forma totalmente descuidada,
convencidos de que era inofensivo, espalhando-o sobre paisagens inteiras e até
dentro de casas e sob a vestimenta das pessoas.
Pouco
antes do fim da Guerra no Pacífico um cargueiro americano estava a caminho de
Manila com uma carga de potentes fitocidas (biocidas que matam plantas) do
grupo 2,4-D e 2,4,5-T. A intenção era matar de fome os japoneses
destruindo suas colheitas através da pulverização do veneno desde o ar. Tarde
demais. O barco teve ordem de voltar antes de chegar. Outro grupo de americanos
acabara de jogar as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, uma terrível
história que todos nós conhecemos, e os japoneses assinaram o armistício. Mesma
história: grande capacidade de produção, enormes estoques sem compradores. A
substância foi reformulada como "herbicida" e descarregada nos
agricultores. Depois, durante a guerra do Vietnam, as Forças Armadas
Americanas impiedosamente espalharam o que eles chamaram de "Agente
Laranja" sobre milhões de hectares de floresta tropical, pretendendo fosse
somente um desfoliante para tornar visíveis as forças inimigas. De fato, estas
formulações continham grandes concentrações de 2,4,5-T que destruíam totalmente
as florestas.
A
indústria, querendo preservar em tempo de paz o que tinha sido um grande
negócio em tempo de guerra, conseguiu dominar quase completamente a pesquisa
agrícola para redirecioná-la para seus próprios objetivos. Conseguiu cooptar
a pesquisa e extensão agrícola oficial, assim como escolas e, fazendo
"lobby" a favor de legislação ou regulamentação adequadas e criando
esquemas bancários de crédito (aparentemente) fácil, colocaram o agricultor
numa posição na qual dificilmente sobravam outras alternativas. Atualmente,
o paradigma agroquímico é aceito quase sem questionamentos nas escolas
agrícolas, na pesquisa e extensão. A maioria dos agricultores acredita nele e,
freqüentemente, quando marginalizada, se culpa a si mesma por sua incapacidade
para competir.
Tudo isso
veio a existir não como uma conspiração deliberada por pessoas de mentes
diabólicas, desenvolveu-se e estruturou-se de oportunismo em oportunismo. A
medida que uma nova técnica, processo ou regulamentação dava vantagem à alguém
ou à alguma instituição, a respectiva tecnologia era promovida e
ideologicamente consolidada. Alternativas que não encaixavam com as crescentes
estruturas de poder eram combatidas, ignoradas ou desmoralizadas.
Agora sim,
no caso da biotecnologia na agricultura, controlada por grandes corporações
transnacionais, parece que temos uma verdadeira conspiração e que os danos
serão muito mais irreversíveis do que os sofridos até agora. O
principal problema aqui não é tanto se nossos alimentos se tornarão de
qualidade inferior e até nocivos - apesar de que isso possa vir a ocorrer -
mas, novamente, trata-se de adicionar ainda mais estruturas de dependência,
de dominação, sobre os agricultores que ainda restam e uma limitação de
escolhas para o consumidor.
A
fantástica diversidade de cultivares que tínhamos e ainda temos hoje, depois
das tremendas perdas causadas pela "Revolução Verde" durante as
últimas décadas, é o resultado da seleção, consciente e inconsciente, por parte
dos camponeses ao longo dos séculos e dos milênios. Pensemos somente na família
das crucíferas - repolho, couve chinesa, rabanete, nabo, mostarda, couve-flor,
brócolis, colza e muitos outros. Nenhum
destes agricultores jamais solicitou patentes, registro ou certificação...
Agora,
indústrias como a Monsanto querem que aceitemos sua manipulação desta riqueza
preexistente, como a soja "Roundup-ready", com o argumento de que eles
apenas estão dando prosseguimento e acelerando este processo, contribuindo
assim para a solução dos problemas para alimentar a Humanidade.
Eles
insistem mesmo de que não há outra saída. Mas eles sabem muito bem que existem
outras alternativas, melhores, mais saudáveis, mais baratas.
Todo mundo
sabe que a agricultura deve encontrar caminhos para se afastar dos venenos.
Possuímos todos os conhecimentos necessários. Milhares de agricultores
orgânicos em todo o mundo são prova disto.
Com
cultivares resistentes a herbicidas a indústria quer vender pacotes, semente +
herbicida, obrigando o agricultor a usar herbicida, mesmo que ele não o
necessite, e a usar o herbicida da respectiva empresa. No caso de cultivares
com o infame gen "terminator" a conspiração é ainda mais óbvia. Com
esse tipo de semente eles nem precisam se incomodar em solicitar patentes.
Tudo isto
não tem nada a ver com aumento de produtividade, é a culminação do gradativo
processo de desapropriação dos agricultores, para transformar os
sobreviventes em meros apêndices da indústria. Isto agravará a
marginalização, a desestruturação social, a devastação ambiental e a perda da
biodiversidade na Natureza e em nossos cultivos, agravará o problema da fome!