Reconhece-se nos documentos da Agenda 21 do Brasil que é necessário um novo modelo de desenvolvimento para o país e o mundo (MMA, 2000, Camargo, 2000). O sistema atual é insustentável tanto do ponto de vista social, econômico e ecológico (Leis, 1999) quanto energético (Brown, 1998). Nem os sistemas agrícolas, nem as economias regionais se sustentam em recursos renováveis. Vive-se um surto de crescimento que consome, em menos de dois séculos, os estoques que a natureza levou milhões de anos para criar.
Podemos dizer que a sustentabilidade é, ao mesmo tempo, um objetivo distante e uma ação atual coerente com a meta à longo prazo. Requer, ao mesmo tempo, soluções técnicas e políticas, análises simples e também multivariadas. A solução requer, sobretudo, do trabalho de criação de cenários futuros para oferecer alternativas e políticas públicas para o Desenvolvimento Sustentável.
Como fruto da discussão mundial em torno dessas questões
surge a necessidade de avaliar a "Sustentabilidade". A sustentabilidade
pode ser vista como a proporção de recursos renováveis
usados no funcionamento de um sistema.
Recursos renováveis | ||
Sustentabilidade | = | -------------------------------- |
Total de recursos usados |
Os recursos precisam ser quantificados em uma mesma base; uma opção
para isso é usar energia. Assim, a equação para cálculo
do índice de renovabilidade proposta por Odum (1996) permite a medição
da sustentabilidade, caso a análise do sistema seja completa e todos
os fluxos de energia sejam ponderado adequadamente:
Energia renovável | ||
Renovabilidade | = | --------------------------- |
Energia total usada |
Para medir a sustentabilidade várias etapas de trabalho são necessárias:
Contribuições sociais são importantes para:
Materiais e Métodos
Neste trabalho emprega-se a metodologia emergética proposta por Odum (1976, 1981, 1983, 1996, 1998) que já foi usada para analisar os sistemas agrícolas intensivos em energia não renovável dos Estados Unidos e Europa (Odum, 1987; Brandt-Williams e Odum, 1998; e Ulgiati et al., 1998). Contudo, Ortega e Polidoro (1998) e, posteriormente, Ortega e Miller (2000), em função das características peculiares da agricultura ecológica, propõem uma abordagem diferente, para valorar as contribuições da natureza à agricultura, as perdas e as externalidades do sistema. Este trabalho atende estes lineamentos metodológicos.
Diagrama de fluxo energético da Biosfera
Brown (1998) elaborou uma análise do desempenho emergético da Biosfera no século que está terminando, e descobriu que nesse período a taxa de renovabilidade global caiu de 95 para 27%. Nos países industrializados a queda foi até 5 - 15%.
Vale a pena re-examinar o diagrama anterior e identificar mais detalhadamente, na Figura 2, os estoques internos de energia da Biosfera que contribuem em grande medida para o funcionamento do sistema terrestre e a economia humana.
Diagrama de fluxo enérgico do sistema agro-ecológico
Assim como é possível analisar o sistema global é possível analisar subsistemas. Na Figura 3 mostramos um diagrama geral de fluxos de energia de sistemas agrícolas.
O mesmo diagrama se apresenta em forma resumida na Figura 4 e se incluem também as letras que identificam aos fluxos agregados de emergia.
Figura 1. Diagrama de fluxos de energia da biosfera terrestre.
Figura 2. Diagrama dos estoques internos de energia da Biosfera.
Figura 3. Diagrama de fluxos de energia de um sistema agro-ecológico.
Figura 4. Diagrama resumido do sistema agro-ecológico.
Fluxo em unidades comuns | Fluxo em unidades padrão (J, kg, $/ha.ano) |
Emergia (sej) por unidade (J, kg, $) | Fluxo em emergia sej/ha.ano |
% | |
I= Recursos da natureza | |||||
R= Recursos renováveis | |||||
N= Recursos não renováveis | |||||
F= Recursos da economia | |||||
M= Materiais | |||||
S= Serviços | |||||
Y= Total |
Índices emergéticos e econômicos dos Ecossistemas Antrópicos:
Porcentagem de Renovabilidade: %R = 100 (R/Y)
Mede a sustentabilidade do sistema produtivo.
É a razão entre a emergia dos recursos renováveis
(R) e a emergia usada (Y).
Razão de Rendimento de Emergia: EYR = Y/F
Mede a incorporação de energia da natureza ou a obtenção
de emergia líquida.
Calcula-se dividindo a emergia usada no agro-ecossistema (Y) pela emergia
do volume do investimento econômico empregado (F).
Razão de Investimento de Emergia: EIR = F/I
Razão entre a contribuição da economia (F), que
geralmente requer dinheiro e a contribuição dos recursos
naturais (I), quase sempre gratuitos. Permite discutir a competitividade
do sistema com outros da região em mercado aberto.
Razão de Carga Ambiental: ELR = (N+F)/R
Razão entre os recursos não renováveis (N+F) e
os renováveis (R).
Razão de Intercâmbio Emergético: EER = Y/[($).
sej/($)]
Mostra a relação entre a emergia cedida no produto e
a emergia correspondente ao volume de dinheiro recebido no venda ao mercado.
Rentabilidade econômica simples:
RE = (Vendas – Custos Econômicos)/ Custos Econômicos
Custos Econômicos = Custo dos Materiais Comprados + Custo dos
Serviços
Mostra a relação monetária entre o saldo e o investimento
privado na produção.
Rentabilidade econômica sistêmica:
RS = (Vendas + Benefícios – Custos Totais)/ Custos Totais
Custos Totais = Custos Econômicos + Custos Ambientais + Custos
Sociais
Benefícios = Receita decorrente de serviços prestados
a sociedade
Custos Ambientais = Estimativa do valor dos serviços prestados
pela natureza
Custos Sociais = Estimativa do valor pago pela sociedade (externalidades)
Mostra a relação monetária entre o saldo e o investimento
total na produção.
No Brasil nas plantações de soja costuma-se plantar milho na entresafra. Nesta análise para facilitar a compreensão da metodologia emergética simplificamos o sistema (somente se planta soja). Os interessados no sistema completo poderão obter informações em trabalhos anteriores (Ortega e Miller, 2000). Fizemos um esforço para contabilizar: (a) as contribuições ambientais (nitrogênio, nutrientes da rocha mãe, controle biológico, etc.); (b) as perdas do ecossistema (solo, água, biodiversidade, pessoas); e (c) algumas das externalidades (tratamento de efluentes, tratamento médico, etc.). Usamos dados de Rio Grande do Sul e Paraná. Foram estudadas as três principais formas de produção: (a) Agroquímica (a mais usada até cinco anos atrás); (b) Herbicidas (a mais promovida atualmente); (c) Orgânica (a opção que está sendo descoberta por vários produtores).
Características da opção agroquímica: Grande perda do solo; captura de nitrogênio atmosférico; uso intensivo de fertilizantes químicos (fosfatados e potássicos) e agrotóxicos; uso intensivo de maquinaria; uso reduzido de mão de obra; perda por lixiviação os insumos; contaminação do solo, dos alimentos e da água; não contabiliza as externalidades.
Características da opção de herbicidas: Perda reduzida de solo (devido ao plantio direto); captura de nitrogênio atmosférico; uso intensivo de fertilizantes químicos(PK) e agrotóxicos; uso moderado de maquinaria; uso mínimo de mão de obra; uso intensivo de herbicidas (caros e intensivos em energia não renovável), perda por lixiviação dos insumos solúveis incluindo a nova poluição devida aos tensoativos (nos herbicidas); contaminação do solo, dos alimentos e da água com agrotóxicos, impacto dos genes na biota local; não contabiliza as externalidades.
Características da opção orgânica: Perda mínima de solo (devido ao uso de plantio direto e recomposição); captura de nitrogênio atmosférico; uso de fertilizantes químicos não-solúveis e esterco animal e vegetal; não usa agrotóxicos; uso moderado de maquinaria agrícola; uso amplo de mão de obra familiar; não usa herbicidas, mínima perda por lixiviação de dos insumos usados; não contamina o solo, os alimentos nem a água; praticamente não tem externalidades.
Resultados
Tabelas de resultados
Discussão:
Figura 5. Plantação de soja no sul do Brasil
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BROWN, M. T. "Environmental Accounting: Emergy perspectives on sustainability". . "Dialogo LI: Valoración económica en el uso de los Recursos Naturales y Medio Ambiente". Instituto Interamericano de Cooperación para la Agricultura Montevideo, 1998.
FNP. "Agrianual 99. Anuário da Agricultura Brasileira". Editora Argos, São Paulo, 1999.
IEASP (Instituto de Economia Agrícola do Estado de São Paulo). "Informação Econômica". Volume 29, Número 07, São Paulo, 1999.
MERICO, L. F. F., 1996. "Introdução á Economia Ecológica". Editora da Universidade de Blumenau, FURB, Brasil.
ODUM, H.T., 1984. "Energy analysis of the environmental role in agriculture". Pp. 24-51, in "Energy and Agriculture" , G. Stanhill (ed.), Springer Verlag, Berlin, 192 pp.
ODUM, H.T., 1996. "Environmental Accounting, Emergy and Decision Making". John Wiley, NY, 370 pp.
PIMENTEL, D.; PIMENTEL, M.: "Food, Energy and Society". University Press of Colorado, Colorado, USA, 1996.
ORTEGA, E.; MILLER, M. "Sustentabilidade da produção de
soja. Planilhas de soja e milho, convencional e agroecológica..
Comparação de Métodos de Produção de
soja". (2000)
http://www.unicamp.br/fea/ortega/curso/planilha-simples.htm
http://www.unicamp.br/fea/ortega/curso/planilha-complexo.htm
http://www.unicamp.br/fea/ortega/cyted/software.htm
ORTEGA, E. & POLIDORO, H., 1998. "Factors to consider in Emergy Analysis of Agroecological projects", Reunion for XXV Anniversary of Center for Wetlands, University of Florida, Gainesville, Florida, EUA, November 6-8, 1998. In printing.
ULGIATI, S., ODUM, H.T. E BASTIANONI, S., 1994. "Emergy analysis, environmental loading e sustainability. An emergy analysis of Italy". Ecological Modeling. 73, 215-268.
ULGIATI, S.; BROWN, M.T., GIAMPIETRO, M.; MAYUMI, K. & HENDERSON,
R., "Final Document" of "Advances in Energy Studies: Energy Flows in Ecology
and Economy", International Workshop held at Porto Venere, Italy, May 26-30,
1998, Ed. MUSIS, Roma, Italy, pages 629 - 636