RENATO DAGNINO E LEA VELHO
Há dez anos, num 23 de setembro, perdíamos o professor emérito da Unicamp Amilcar Herrera. Entre as muitas contribuições que fez às instituições acadêmicas latino-americanas, está a criação do Instituto de Geociências (IG) e do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT), onde atuou como professor por mais de 15 anos. É a partir da condição de membros de sua equipe que queremos prestar a ele uma homenagem dividindo com colegas e alunos da Universidade um comentário acerca da importância de Herrera para nosso departamento, um dos poucos dessa natureza existentes em países periféricos.
Nossa história começa em 1977 com o convite feito a Herrera, então um jovem de quase 60 anos, para participar do Seminário C&T e Estratégias para Independência, organizado pela Companhia de Desenvolvimento Tecnológico (Codetec) da Unicamp.
Ele colocou ali alguns conceitos (indicados em negrito) e enunciou quatro idéias cuja atualidade é central para pensar a relação CiênciaTecnologiaSociedade na América Latina:
1. Existia na América Latina uma capacidade científica suficiente para remover os obstáculos cognitivos ao nosso desenvolvimento. Era a escassa Demanda Social por P&D e aí incluía tanto a privada como a governamental -, que deixava nossa capacidade subutilizada. Era um obstáculo pervasivo, estrutural, histórica e politicamente determinado por nossa condição periférica.
2. Sua remoção demandava um Projeto Nacional apoiado politicamente por amplos segmentos da sociedade. Ao colocar demandas materiais específicas, tecnologicamente apropriadas e cientificamente originais, ele tenderia a inverter a lógica ofertista e imitativa que presidia nossa produção de conhecimento.
3. No plano institucional, ele seria capaz de emular em nosso Sistema de C&T uma dinâmica científico-tecnológica endógena e prospectiva orientada por áreas-problema econômica, social e estrategicamente relevantes para o País.
4. Uma outra questão-chave a relação entre Política Explícita e Implícita de C&T também se alteraria. Deixaria de ocorrer a oposição entre a primeira aquela que visa ao aumento da capacidade de “oferta”, na universidade e instituições de pesquisa e a segunda aquela que, resultado das políticas-fim e do contexto sócio-econômico, limita a “demanda”.
Politicamente, suas idéias aportavam ao esforço teórico então em curso no plano internacional olhar inside the black box da tecnologia uma visão, mais do que latino-americana, “periférica”. Conceitualmente, salientavam que mais do que de gestão, nosso problema se situava na interface entre a policy e a politics da C&T. Metodologicamente, contribuíam com um enfoque multidisciplinar pela via da política científica, e não pela via da política industrial e da abordagem da economia da tecnologia hoje hegemônica.
Voltando a nossa história...
Aquele seminário havia sido “bancado” no duplo sentido por Severo Gomes. Ele ocupava uma ilha progressista do governo Geisel, o Ministério da Indústria e Comércio. Impressionado por aquelas idéias, e aconselhado por ele e por professores da Unicamp, o reitor Zeferino Vaz convidou o geólogo Herrera para preencher um dos últimos nichos de seu projeto: o Instituto de Geociências. “De ñapa”, vinha um intelectual internacionalmente conhecido pela sua contribuição aos estudos de prospectiva e à reflexão sobre a política de C&T que poderia infundir na sua research university, idéias que poderiam torná-la ainda mais relevante.
Herrera decide interromper sua estada, forçada pelos militares argentinos, no prestigioso Science Policy Research Institute da Inglaterra e abraça o desafio de criar um Instituto de Geociências diferente. Ele o queria relevante e, por isso, multidisciplinar, orientado a áreas ainda não exploradas na América Latina e dedicado à pesquisa e à pós-graduação.
Quando Herrera chega à Unicamp, no final de 1979, o clima que até então predominara havia mudado radicalmente. E foi só em função do apoio da Codetec, em particular do grupo de professores e alunos que viria a constituir com ele o Núcleo de Política de C&T, e que a partir dali vocalizava uma alternativa de autonomia e relevância social para a C&T brasileira, que ele pôde começar o seu trabalho.
Com o entusiasmo que o caracterizava, ele foi formando seu exército de entusiasmados. Em pouco tempo e quase sem recursos se implantam quatro áreas até então inexistentes em nosso meio: Economia Mineral, Geoquímica, Educação em Geociências e Política Científica Tecnológica. Todas elas coerentes com sua proposta de renovação da universidade latino-americana.
Quando a equipe era ainda pequena, ele nos ensinou o valor da pluralidade. Algo que ia além do campo acadêmico, da multidisciplinaridade, e que chegava ao ideológico, dos valores, das visões de mundo.
À medida que crescíamos, fomos apreendendo também a importância que tinha para a qualidade acadêmica do nosso trabalho a relação de relevância que fôssemos capazes de manter com setores da sociedade que compartilhavam aquelas das visões de mundo.
Pacientemente, ele foi sinalizado, para a equipe que se expandia, os valores que deveriam pautar as ações do Instituto. E que, embora fôssemos encontrar a resistência do tradicional, havia um jeito o seu de “não engolir sapos sem ter que matá-los a pauladas”.
A convivência com Herrera marcou todos que com ele conviveram. O seu conhecimento profundo dos problemas mundiais, não o tornaram um cínico, mas sim alguém que acreditava na possibilidade de mudanças sociais. E nessas mudanças ele via um papel de destaque para as mulheres e os jovens. E era exatamente essa capacidade de ouvir os jovens e aprender com eles que o tornava tão especial enquanto pessoa. Para reforçar essa convicção, ele costumava dizer “sempre se pensa que a idade torna as pessoas mais sábias. Na minha experiência, sei que isso não ocorre: a idade nos faz velhos, não sábios”. E completava, “para se tornar mais sábio com a idade, não se pode perder a capacidade de acreditar num futuro coletivamente construído, não se pode deixar de refletir, nem se pode deixar de escutar e aprender com os outros, principalmente os jovens”. Era assim que ele se tornava mais sábio com a idade e, supreendentemente, também ficava cada vez mais jovem.
Nós consideramos que foi muito graças ao Herrera que o DPCT alcançou sua maturidade. Fica ao leitor o convite para nos ajudar a avaliar: a) a força daquelas suas quatro idéias para conformar uma agenda latino-americana de pesquisa e docência em política de C&T; b) a importância de seu estilo plural de gestão para que essa agenda contra-hegemônica pudesse ser implementada; c) a atualidade que têm, suas idéias e seu estilo de gestão, como guia para construir um cenário melhor para nosso país; e d) o quanto teremos que trabalhar nos próximos anos para seguir divulgando conceitos que ele criou e que só agora começam a entrar na policy making da C&T latino-americana, e para continuar, como ele, “fazendo o caminho ao andar”.
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Renato Dagnino e Lea Velho são professores do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp