Uma reunião entre o reitor da Unicamp, Antonio José de Almeida Meirelles, e representantes do Comando Militar do Sudeste (CMSE), do Exército Brasileiro, marcou o pontapé inicial para a possível retomada, na Universidade, das atividades do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE), extinto em 2009. A parceria entre as duas instituições pretende fomentar pesquisas em diferentes áreas de interesse para a segurança e o desenvolvimento do país. Após o encontro dessa terça-feira (25), espera-se o avanço das tratativas para a assinatura de um memorando de entendimento ainda no segundo semestre de 2025.
Representaram a instituição de defesa nacional o general de brigada veterano Eduardo Schneider e o coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos do Exército (em operação na capital paulista), coronel veterano Eduardo Migon. “Hoje, fizemos uma aproximação inicial para começarmos a analisar a criação do grupo de estudos estratégicos que resgata o núcleo que já funcionou no passado, na época mobilizado pelo professor Eliézer Rizzo e o coronel Geraldo Cavagnari, mais tarde interrompido”. O general explica que é do interesse dos militares levar os assuntos de defesa à academia.
Na reunião, acertou-se manter as discussões sobre o arcabouço jurídico que dará respaldo à assinatura de um memorando de entendimento e a parceria entre as instituições, visando concretizar o acordo em breve. As partes propuseram fazer da estruturação física do NEE dentro da Universidade o primeiro projeto de trabalho do grupo, funcionando como um “guarda-chuva” para abrigar ações colaborativas a respeito de diferentes temáticas, como saúde, engenharia e economia. Dessa forma, o núcleo operará como um hub que agregará as expertises da Universidade e do seu entorno com a expertise militar.

Meirelles afirmou considerar importante pensar essa parceria no contexto das disputas geopolíticas e da realização de esforços convergentes para proteger os interesses nacionais. “O Brasil é, hoje, uma das maiores economias do mundo. Temos a maior floresta tropical, a maior reserva de água doce, temos a Amazônia Azul, que é uma riqueza imensa em termos de petróleo. Somos um país com potencial de produzir energia renovável. Somos uma grande potência na bioenergia. Quer dizer, o Brasil é um país que tem muitas riquezas. Precisamos pensar em como defender esse patrimônio, e as Forças Armadas são uma questão essencial nisso”, afirmou.
Também participou da reunião o professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) Marcos José Barbieri, doutor na área de economia industrial que há mais de 20 anos trabalha com pesquisas sobre o setor aeronáutico, espacial e de defesa. Barbieri ressaltou que “os estudos estratégicos e de defesa vêm se difundindo na área acadêmica ao longo das últimas décadas, experimentando uma demanda crescente em razão das profundas transformações geopolíticas e tecnológicas que vêm se aprofundando em escala global. Dessa maneira, é de fundamental importância que a Unicamp volte a se inserir nesse debate de maneira ativa”.
A Unicamp já possui convênio com uma empresa pública ligada à Marinha e hoje focada no ramo oncológico. A universidade, porém, pretende ampliar essa empreitada colaborativa para abarcar outras áreas. Outras tratativas do tipo envolvem o Instituto Militar de Engenharia (IME), com foco na ciência e tecnologia, e a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), com foco na área de ensino.

Histórico
A Unicamp já contou com um Núcleo de Estudos Estratégicos, criado em março de 1985, a partir da iniciativa do professor Eliézer Rizzo de Oliveira, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), com a participação dos professores João Carlos Kfouri Quartim de Moraes (IFCH), René Armand Dreifuss (Universidade Federal de Minas Gerais) e Geraldo Lesbat Cavagnari Filho (IFCH). As atividades foram encerrada a partir da Deliberação Consu 347/09.
De acordo com Barbieri, o NEE da Unicamp, juntamente com o Núcleo de Estudos Estratégicos (Nest) da Universidade Federal Fluminense (UFF), foi o primeiro entre as universidades públicas do país, estabelecendo relações institucionais com diversos centros de estudo do país e do exterior, além de manter uma relação próxima com as Forças Armadas, particularmente com as unidades do Exército sediadas em Campinas.
De caráter interdisciplinar, as linhas de pesquisa do NEE abarcaram inicialmente os estudos estratégicos e sobre as Forças Armadas, incorporando posteriormente as relações internacionais. O NEE na Unicamp ainda acompanhou a Constituinte de 1988 e contribuiu para a criação do Ministério da Defesa, em 1999. O objetivo central do núcleo consistiu em informar os poderes civis e a sociedade como um todo a respeito de temas relacionados à defesa nacional.