
Há dez anos, a coleção de livros e documentos do filósofo, professor e tradutor Fausto Castilho (1929-2015) ganhou um espaço dedicado na Biblioteca de Obras Raras (Bora) da Unicamp, que leva seu nome. O acervo de 11 mil volumes passou por higienização página a página e foi classificado e catalogado por temas, trabalho que se estendeu de 2016 a 2022. Hoje, a coleção, que ocupa uma área do térreo da biblioteca, atrai pesquisadores do Brasil e do exterior em busca de suas preciosidades.
A bibliotecária da Bora Isabella Nascimento Pereira, que fez parte da comissão que recebeu a coleção, conta que os volumes estão dispostos nas estantes originais que pertenciam a Castilho. Há, ainda, sua escrivaninha e um acervo de documentos e fotografias. “Fausto Castilho negociou a doação do acervo em vida, o que não é muito comum. Os livros estavam dispostos a partir de sua organização pessoal e nossa primeira ação foi fazer uma listagem de tudo, o que ele não tinha”, completa.
O filósofo Alexandre Guimarães Tadeu de Soares, que foi seu aluno na Unicamp e hoje é o presidente executivo da Fundação Fausto Castilho, cuja presidente de honra é a sua viúva, Carmen Castilho, destaca que a visita ao acervo é prazerosa e formativa. “O caminho depende muito da formação de cada pessoa, mas uma boa porta de entrada é a própria coleção editorial, que oferece um roteiro do pensamento do autor. A visita à biblioteca é marcada pelo encontro com livros que nos chamam, nos convocam e nos levam a descobertas”, afirma.

Para Soares, é importante que o visitante deixe-se surpreender pelos livros, pelas estantes e pelos encontros inesperados. “Essa experiência, quase mágica, de descoberta é algo que só uma biblioteca física pode proporcionar. A coleção tem um núcleo forte em filosofia, mas também reúne obras fundamentais das humanidades”, acrescenta.
O presidente da fundação enfatiza que a biblioteca pessoal de Castilho era, de fato, seu laboratório. “Ele passava horas preparando cursos, traduzindo textos e escrevendo, sempre fazendo anotações nos livros. É impressionante ver como eles foram trabalhados, apropriados e transformados pelo estudo contínuo. Isso confere à biblioteca um valor intelectual singular.”
Hoje, a Fundação Fausto Castilho atua em três eixos principais. “O primeiro é o editorial, com apoio a publicações, especialmente traduções e edições bilíngues, começando pela própria Editora da Unicamp e pela coleção Fausto Castilho, mas também em parceria com outras editoras e centros de pesquisa. O segundo eixo é o apoio a instituições parceiras, como a Bora, por exemplo. O terceiro eixo é o apoio a eventos acadêmicos, como colóquios, congressos, minicursos e conferências, incluindo encontros nacionais e internacionais de filosofia”, completa Soares.
Conceito de universidade
A arquitetura da Unicamp deve muito a Castilho. “Uma curiosidade na biblioteca é uma lousa com o desenho do que viria a ser o traçado da Unicamp, feito por ele”, destaca a bibliotecária. O traçado urbano de seu principal campus, no distrito de Barão Geraldo, em Campinas, conta com uma configuração radial, com uma grande praça ao centro, o Ciclo Básico, da qual saem vias circulares concêntricas que levam aos seus institutos de ciência básica – matemática, biologia, filosofia, artes, física. E, no círculo mais externo, as unidades de ciência aplicada, como as engenharias e a medicina.

Segundo Soares, essa concepção tem origem em um projeto anterior, interrompido pelo golpe militar, mas retomado quando Castilho foi convidado por Zeferino Vaz, fundador da Unicamp, a organizar a área de humanidades da Universidade. “Isso está registrado em um livro produzido a partir de uma entrevista que ele me concedeu, intitulado ‘O conceito de universidade no projeto da Unicamp’, no qual discute o projeto e a ideia de universidade moderna. Essa reflexão se materializou no próprio desenho do campus radial.”
Professor-emérito da Unicamp, Castilho, considerado um dos maiores conhecedores da obra do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), de quem foi aluno, traduziu para o português “O Ser e Tempo”, a primeira edição bilíngue da obra. “Sem dúvidas, um dos seus grandes legados foram suas traduções. Para fazer a tradução da obra de Heidegger, ele usou várias edições do livro, que estão no acervo, repletas de anotações”, destaca a bibliotecária.
“Segundo o próprio Fausto, esse trabalho levou mais de 50 anos para ser concluído. Não se tratava de uma tradução meramente técnica, mas de um processo profundo de estudo e reflexão. Cada frase continha uma tese, uma orientação de pensamento, e o texto passou por inúmeras revisões. Hoje, temos registros finais desse processo, que são extremamente valiosos”, completa Soares, que destaca a intensa dedicação do filósofo com a tradução. “Ele a entendia como um método de apropriação do pensamento filosófico. Publicou diversas traduções pela Editora da Unicamp e organizou a coleção que hoje leva seu nome, composta por duas séries, uma delas dedicada a traduções bilíngues.”

O acervo pode ser consultado para pesquisa por meio de agendamento, já que as obras não podem ser retiradas. A Bora abre de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. Mais informações no site https://bora.unicamp.br/
Inquietude filosófica
Ricardo Lima, jornalista e coordenador editorial da Editora da Unicamp, é o autor da biografia “O pensador inquieto” (CMU Publicações, 2024), que registra momentos e realizações de Castilho, como sua formação na Universidade Sorbonne, em Paris, junto a grandes nomes da filosofia e sua aventura de promover uma conferência de Jean-Paul Sartre no interior paulista.


“Convivi com Fausto e ouvia suas histórias na época em que ele coordenou o lançamento de duas coleções na editora. Lancei a biografia do professor André Tosello (1914-1982), fundador da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, e acabei sendo convidado para escrever a sua biografia também, lançada em 2024 pelo Centro de Memória da Unicamp”, conta.
Castilho, que nasceu em Cambará, no norte do Paraná, era de uma família de prósperos fazendeiros. Estudou em São Paulo, no Liceu Franco-Brasileiro (hoje Liceu Pasteur), onde experimentou o primeiro contato com a filosofia, por meio de uma aula sobre a “Carta VII”, de Platão. Em 1948, foi estudar na Sorbonne, em Paris, quando teve oportunidade de estudar a filosofia francesa do século XX com alguns de seus grandes nomes. Um de seus mestres, Maurice Merleau-Ponty, o incentivou a ampliar sua formação, e ele foi para a Universidade de Friburgo, no sudoeste da Alemanha, para fazer um curso que seria ministrado por Heidegger.
Em 1960, Castilho promoveu a visita de Sartre e de sua companheira, a também filósofa Simone de Beauvoir, a Araraquara (SP). Na época, era professor da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) de Araraquara – hoje uma unidade da Universidade Estadual Paulista (Unesp) –, onde criou a cadeira de filosofia. Sartre e Beauvoir foram a congressos, conferências, recepções e lançamento de livros e concederam entrevistas para jornais e emissoras de TV.


Durante essa agenda concorrida, Castilho teve a oportunidade de questionar o francês sobre suas ideias, e Sartre respondeu em forma de conferência, ministrada na FFCL em 4 de setembro daquele ano. O evento marcou a história da filosofia no Brasil, e sua recente publicação pela Editora Unesp, sob o título “Sartre no Brasil: A Conferência de Araraquara”, permitiu que mais pessoas tivessem acesso a seu pensamento.
Sete anos depois, a convite de Zeferino Vaz, Castilho integrou o grupo de notáveis encarregados da criação da Unicamp. “Fausto chegou à Unicamp com muitos privilégios porque Zeferino Vaz sabia que era preciso ter pessoas importantes para formar a Universidade que temos hoje”, lembra Lima. Baseado em registros da época e na narrativa de Eustáquio Gomes em “O Mandarim – História da Infância da Unicamp” (Editora da Unicamp, 2006), o biógrafo mostra que os atritos entre Castilho e Vaz levaram ao seu desligamento do projeto, em 1972. Mas o filósofo retornou à Unicamp, em 1985, como professor.
Soares, que foi seu aluno na graduação e na pós-graduação em Filosofia, entre o final da década de 1980 e início dos anos 2000, o classifica como um “professor extremamente marcante” e destaca que era enriquecedor ouvi-lo nas aulas e nos cursos que promovia.
“Fausto tinha um conhecimento profundo dos temas que abordava e, ao mesmo tempo, transmitia a sensação de que estávamos ouvindo um filósofo em plena reflexão, alguém apaixonado pelo pensamento, tomado por emoções e convicções. Isso afetava profundamente quem o escutava. Suas aulas, conferências e intervenções — muitas vezes polêmicas — encantavam e mobilizavam os estudantes. Ele gostava do debate e costumava lotar auditórios.”
