Foto: Antoninho Perri

Peter Schulz foi professor do Instituto de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

A mobilização da ciência em tempos de COVID-19

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A crise global devido à pandemia do COVID-19 traz à tona as mais diversas reações. A adesão ao isolamento e quarentena é apoiada por ampla maioria nesse seu início no Brasil. Basta olhar pela janela o movimento nas ruas.  Mas não é unânime, infelizmente grupos ainda expressivos consideram o novo Coronavírus o causador de uma mera “gripezinha” e que as vias públicas desertas são resultado de “histeria”. Negação maníaca do problema e da ciência, que afirma e reafirma a necessidade de unanimidade na adesão ao isolamento para conter a pandemia. A ciência provê cenários e indica medidas de contenção, enquanto se esforça globalmente em entender a doença e buscar tratamentos e vacinas, processos necessariamente longos. Entre tantos movimentos sociais e políticos diferentes e muitas vezes desconexos, como ela (a ciência) responde em tempos de crise como agora? Fazendo o que tem que ser feito por ser a coisa certa a fazer.

O enfrentamento de uma crise não cabe no curso da normalidade e para entender as mudanças necessárias é interessante lembrar o curso normal da ciência. Cientistas às vezes trabalham sozinhos, mas geralmente em grupos, maiores ou menores. Buscam respostas e, principalmente, novas perguntas, desenhando projetos de pesquisa e buscando financiamento para a execução deles, durante a qual estudantes são formados. Colaboram, como disse, em grupos, mas também competem, pois em cantos diferentes do mundo muitas vezes as perguntas são parecidas e as respostas a elas também. Poucas coisas foram descobertas ou desvendadas por um único cientista ou grupo deles. Em geral essas descobertas são múltiplas, mas alguém, aquele que é considerado o primeiro, leva a fama. Nesse processo, as pesquisas precisam tornar-se públicas para serem apreciadas, contestadas e continuadas. É o produto crucial da ciência: seus artigos científicos, publicados em revistas zelosas pelo seu conteúdo e acesso. Mas não para aí, embora muitos pensem que sim, pois os resultados da ciência só se transformam em bens comuns para a sociedade após um longo processo de formação de consenso. Da mesma forma que uma andorinha não faz verão, um único artigo sobre um assunto não é uma verdade científica consolidada. Isso tudo ocorre em universidades (no caso do Brasil nas públicas, como poucas exceções) e institutos de pesquisa. Esse é o resumo incompleto de como funciona a comunidade científica em dias de sol e temperaturas amenas. Como isso se modifica na emergência? A ciência se mobiliza em função da humanidade.

Cientistas especializados intensificam a busca por respostas e outros abandonam suas perguntas de interesse normal e voltam-se para as questões urgentes. Isso é facilmente percebido pelo número de artigos publicados, observando os dados de uma importante base de dados bibliográficos internacional, no caso a Web of Science, consultada em 19 de março de 2020. O gráfico mostra o número de artigos científicos com o tópico “Coronavírus” desde o ano 2000. Os aumentos de produção científica em anos anteriores, 2002, 20112 e 2015, devem-se a surtos e epidemias relacionados a cepas mais antigas do Coronavírus: SARS, SARS-Cov e MERS, respectivamente. Ainda estamos no começo de 2020, mas uma projeção simples e subestimada para este ano (barra laranja) indica o enorme esforço e engajamento da ciência para enfrentar a atual pandemia. Artigos normalmente demoram para ser publicados, mas esse ritmo também se modifica na crise. Mas não é só isso. O acesso a esses artigos, muitas vezes restrito aos assinantes das revistas é liberado pelas editoras em repositórios organizados especialmente sobre o tema, para que a circulação de ideias seja mais rápida e abrangente. É o caso da revista Lancet[I], da editora Elsevier[II] ou mesmo dos responsáveis pelas bases de dados, como a mencionada Web of Science[III]. Essas ações foram extremamente rápidas, como necessário, anteriores à declaração de pandemia pela Organização Mundial da Saúde.

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Não só de artigos vive a comunidade científica. Universidades pelo mundo criaram rapidamente seus centros de informação para o público, atualizando (e validando) dados diariamente, como o da Universidade Johns Hopkins, uma das primeiras, cujos mapas, tabelas e gráficos são uma excelente fonte de informação. Nem só cientistas das ciências biológicas e da saúde se mobilizam. O Observatório COVID-19 BR foi criado e é mantido basicamente por físicos das universidades públicas no estado de São Paulo, nucleados em torno do Instituto de Física Teórica da Unesp[IV]. A ciência em tempos de crise não se preocupa somente em gerar novos conhecimentos, passa a ser prioridade também reproduzir e aplicar conhecimentos já existentes, que quando não adequadamente disponíveis, tornam-se as necessidades prementes. Seria impossível fazer justiça a todos esses esforços de comunidades científicas espalhadas pelo mundo. Um exemplo da casa (Unicamp) é a força tarefa para a elaboração de teste para diagnóstico local do coronavírus[V]. Nem só de descobertas de tratamentos e de aplicação de conhecimentos vive a comunidade científica. Seus membros se dedicam também a projetar e informar políticas públicas. Enquanto a longa corrida para medicamentos ou vacinas não chega, a ciência mostra o que deve ser feito, como as intervenções não-farmacêuticas contra a pandemia, ou seja, em última instância a quarentena. Foram as simulações contidas em um relatório do Imperial College COVID-19 Response Team[VI] que finalmente convenceram lideranças em alguns países a tomar providências mais urgentes e eficazes.

Portal da Universidade Johns Hopkins: dados atualizados em 22 de março de 2020, 316 mil casos e mais de 13 mil mortos.
Portal da Universidade Johns Hopkins: dados atualizados em 22 de março de 2020, 316 mil casos e mais de 13 mil mortos.

Nesse processo todo, no entanto, nem todos os efeitos são desejáveis. O livre acesso a resultados preliminares, para grupos de pesquisadores em todo o mundo, faz com que a imprensa e o público também tenham acesso e aqui é preciso cautela para a síndrome do “A ciência diz que”. É o caso dos resultados altamente preliminares sobre o efeito da hidroxicloroquina e cloroquina no tratamento do COVID-19. Ao acessar o artigo no link fornecido[VII] aparece primeiro em letras garrafais: “Este artigo é preliminar e não foi certificado pela revisão por pares. Ele apresenta pesquisa médica nova que ainda precisa ser avaliada e, portanto, não deve ser usada para guiar práticas clínicas.” Tarde demais, no Brasil já houve corrida às farmácias para a compra do medicamento sem prescrição médica, apesar do esclarecimento da Anvisa[VIII]. Pode ser promissor, mas a regra de formação do consenso científico, antes de uma descoberta promover o bem comum precisa continuar válida. A divulgação científica em situações de crise precisa ser extremamente criteriosa também.

As iniciativas listadas aqui são respostas emergentes e muitas vezes espontâneas, mesmo assim convergentes, porque a ciência sabe o que precisa ser feito.  Mas ela também tem seus protocolos estruturados para essas emergências, como o relatório Science During Crisis:Best Practices, Research Needs, and Policy Priorities[IX] de Rita Colwell e Gary Machlis. É recente, mas anterior à atual pandemia e pensando em outras crises. A ciência tão criticada por certas alas nos últimos tempos volta a ser apreciada e sua necessidade reconhecida. As consequências de não ser ouvida e as devidas providências tomadas, por medo, por exemplo, de não prejudicar a economia, é bem ilustrada no artigo da Science em que Rita e Gary comentam seu relatório[X] do qual reproduzo aqui o parágrafo inicial:

“Em abril de 1902, na ilha caribenha de Martinica, a Commission sur le Vulcan foi convocada a tomar uma decisão fatídica. O vulcão Monte Pelée emitia fumaça e espalhava cinzas pela capital Saint-Pierre. Composta por médicos, farmacêuticos e professores de ciência [ou seja, nenhum cientista da área relevante], a comissão debateu o perigo de uma erupção e o custo de evacuação, julgando que a segurança da população da cidade estava “absolutamente assegurada”. Semanas mais tarde, o vulcão entrou em erupção e aproximadamente 30 mil residentes morreram em minutos, deixando apenas dois sobreviventes”.

Ouça a ciência, esqueça certos membros no grupo família de WhatsApp e fique em casa.

 

 

 

 

 

 

 


[I] https://www.thelancet.com/coronavirus

[II] https://www.elsevier.com/connect/coronavirus-information-center

[III] https://clarivate.com/coronavirus-resources/

[IV] https://covid19br.github.io/index.html

[V] https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2020/03/17/pesquisadores-da-unicamp-iniciam-elaboracao-de-teste-para-diagnostico-local-do

[VI] https://www.imperial.ac.uk/media/imperial-college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/Imperial-College-COVID19-NPI-modelling-16-03-2020.pdf

[VII]  https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.03.16.20037135v1

[VIII] http://portal.anvisa.gov.br/noticias/-/asset_publisher/FXrpx9qY7FbU/content/covid-19-esclarecimentos-sobre-hidroxicloroquina-e-cloroquina/219201

[IX] https://www.amacad.org/sites/default/files/publication/downloads/PFoS_Science-During-Crisis.pdf

[X] https://science.sciencemag.org/content/364/6435/5

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