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Novos significados para
a vulnerabilidade social
Estudo revela que homogeinização
interfere na identificação de
processos de desigualdades educacionais
Pesquisa
desenvolvida para doutoramento do economista e professor Sergio
Stoco na Faculdade de Educação (FE) oferece novos significados
para o conceito de vulnerabilidade social, que pode ser aplicado
em pesquisas de avaliação ou orientação de políticas educacionais.
O pesquisador explica que, quando se estratifica uma população,
a partir de uma variável de nível socioeconômico, para identificar
os processos de desigualdades educacionais, o que se obtém
é uma medida que homogeniza e sintetiza características, como
por exemplo, renda familiar, escolaridade da mãe, analfabetismo,
entre outros.
Os indicadores construídos
a partir destas variáveis permitem distinções de grandes agregados
populacionais e certa medida de concentração da desigualdade,
mas não são eficientes para diagnosticar o funcionamento do
fenômeno social, em sua opinião. “Essas variáveis não servem
para avaliar condições sociais porque, por ser síntese, condensa,
transforma tudo em igual e estático”, explica.
O economista acredita que
um olhar mais atento para o sistema educacional e as relações
sociais vinculadas à escolarização demonstram que as desigualdades
continuam existindo, apesar da universalização do ensino fundamental,
pois apenas se transfigurou a forma de apresentação dessas
desigualdades. Na opinião de Stoco, por contribuírem no desenvolvimento
de políticas públicas, pesqusas que utilizam fatores associados
ao desempenho escolar deveriam interpretar os estratos sociais,
a partir de variáveis multidimensionais. “E mesmo se pensar
em estratos, tem considerar que, entre as famílias pobres,
a pobreza não é igual para todo mundo. Todos têm a mesma condição
de acesso e qualidade a equipamentos de educação, saúde, programas
de assistência, condições de infraestrutura urbana, entre
outros?” Ele acrescenta que todas essas variáveis de condição
socioeconômica se relacionam com as escolhas que as famílias
fazem para defi nir a trajetória educacional dos seus filhos.
A falta de uma exploração
mais abrangente de fatores que envolvem a vulnerabilidade
social pode induzir ao uso inadequado dos resultados de pesquisas,
segundo o professor. Como exemplo, ele cita estudos que vincularam
o desempenho escolar ao uso de computador. “Muitos defendem
que o computador melhora notas da escola. Mas podemos afirmar
que, se foram colocados computadores para todos, o desempenho
dos estudantes na escola irá melhorar de forma generalizada?
Isso não é uma certeza.” Stoco enfatiza que as pesquisas só
mostravam que havia relação entre o uso de computadores e
as melhores notas, mas não dizia que se todos tivessem computadores
melhoraria o rendimento. “Isso mostra o uso inadequado do
resultado da pesquisa para justificar a formulação de políticas.
Minha tentativa é demonstrar que para fazer um indicador que
fosse mais adequado para demonstrar essas relações temos de
compreender todas as condições sociais envolvidas. Não posso
falar só de uma parte”, explica.
Para
complementar, ele diz que o computador representa uma capacidade
física (ativo material) que a pessoa tem. “É bom para a escola,
dentro de um contexto, mas um computador parado não serve
para nada”, diz Stoco. Para ele, se não houver uma relação
dessa máquina com o objetivo pedagógico de busca e uso de
informação para construção de conhecimento, o computador se
torna um adorno. Para um resultado eficiente, conforme Stoco,
não pode existir somente o computador, mas devem-se construir
os sentidos materiais e simbólicos em ambiente favorável à
aprendizagem, o que significa reconhecer a visão e expectativas
das famílias, como elemento fundamental do processo, bem como
a valorização dada por elas a determinados bens culturais.
“Sabemos que de todas as crianças
que entram na escola, algumas vão se adaptar à cultura escolar
e outras não.” Diante desse fato, Stoco salienta que é preciso
saber como as relações se constroem para cada criança. Ao
valorizar um determinado padrão de comportamento, escolas
e algumas pesquisas consideram apenas o olhar da escola, o
que acaba reforçando as desigualdades e segregando, de acordo
com o professor. “Por exemplo, a criança tem de ser incentivada
pela mãe para ir à escola, mas esse incentivo é igual em todas
as famílias?” Ele acrescenta que a realidade da família nem
sempre permite que os pais participem de atividades estabelecidas
pela escola, entre elas conselho escolar, reunião de pais
e acompanhamento das tarefas. Daí a necessidade de compreender
as diferentes condições e posições que as famílias ocupam
na sociedade, o que obriga a ampliar as variáveis na hora
de analisar o problema, enfatiza o economista.
Desempenho
Stoco afirma que uma das questões
a ser revistas é o uso social que se faz da nota de desempenho
como sucesso escolar. “Quando associo uma nota ao desempenho
escolar o sentido intrínseco é expressar uma posição em uma
escala de aprendizagem”, pontua. O número obtido, em sua opinião,
não é garantia de uma sociedade melhor, mais justa, menos
desigual, com crescimento econômico ou maiores salários. Para
ele, a nota em si não tem sentido social. Ela só tem sentido
social porque as pessoas atribuem um valor material e simbólico
à formação escolar: “As pessoas acreditam que um título escolar
ou uma boa nota significam uma melhor condição. Mas essa expressão
de valor é diferente para as diversas camadas sociais. Se
a pessoa é estratifi cada como classe média, a cultura escolar
faz parte do seu cotidiano, os pais são geralmente mais escolarizados,
valorizam a participação em meios culturais como teatro,cinema,
discussões críticas, isso gera uma pré-disposição de comportamento
que valoriza certo padrão legítimo de cultura”, acrescenta.
Para a sociedade, a educação
está associada a certa expectativa de projeção social, segundo
Stoco. Mas para as famílias carentes, a preocupação material
é mais premente. “Como consigo as condições materiais para
produção e reprodução diária da minha sobrevivência?”, questiona.
Essa imediatização dos objetivos, em sua opinião, também se
transfere para o objetivo educacional. Sendo assim, o pesquisador
acredita que não adianta colocar a criança diante de um currículo
que aborde importantes temas da história, ciências e geografi
a se para elas estes temas não têm significado na sua realidade.
“Aliás, para a classe média, esses conhecimentos ganham um
sentido material muito forte quando associado ao vestibular.
A criança constrói desde muito cedo uma expectativa (objetivo
educacional) de passar no vestibular e conseguir realizar
uma carreira profissional e atingir determinado status social”,
pondera.
Stoco esclarece que sua pesquisa
não é uma prova da inviabilidade de se estudar fatores associados
ao desempenho escolar, mas sim um alerta teórico e metodológico
de que, do ponto de vista social, a realidade é mais complexa
do que imaginar soluções de causalidade. O risco de uma visão
simplista e enviesada da realidade é criar uma idealização
(nas políticas públicas, na imprensa e um senso comum). “Meu
objetivo é discutir do ponto de vista teórico, metodológico,
a pertinência e robustez do conceito de vulnerabilidade social
para a análise das desigualdades educacionais”.
Stoco acrescenta que a questão
também não pode ser colocada como uma comparação entre crianças
que frequentam a escola pública e a escola privada, pois as
avaliações nacionais, desde a década de 1990, provam que não
tem tanta diferença assim. Muitas famílias acabam por fazer
um grande esforço para colocar seus filhos em escolas particulares,
pois há uma difusão de mitos de que essas instituições são
melhores que as públicas, porém, recorrendo a uma interpretação
pedagógica das avaliações, quase de senso comum, será possível
perceber que a diferença é mínima. Como demonstração, ele
pondera: “A professora faz uma prova de história com um conteúdo
a ser avaliado. Se a prova tem escala de 0 a 10, e o aluno
tira 4, na escala de avaliação da professora, é muito provável
que esta, proporcionalmente, é uma nota ruim em relação ao
conteúdo trabalhado. Não aprendeu nem metade do conteúdo.”
Ele acrescenta que na avaliação nacional acontece o mesmo,
pois numa escala de zero a dez, todos tiram em torno de 4,5.
Enquanto a particular tem nota 4,7, a pública tem 4,2. “A
interpretação correta seria: as duas são ruins”, questiona.
“Mas é claro que se olhar para poucas escolas elitizadas (o
ranking das dez melhores públicas ou privadas), as diferenças
são signifi cativas e não se restringem às características
das escolas, pois há um efeito de seleção de estudantes”,
complementa.
Para Stoco, é preciso resgatar
o objetivo da educação. “Para que serve? Para as pessoas tirarem
nota ou para formar a sociedade? Só existe desigualdade porque
esta é uma característica estruturalmente inerente a nossa
sociedade”. Ele destaca que a análise social sempre depende
de uma concepção de sociedade, uma teoria social. Há uma linha
de pensamento que analisa pela ótica da igualdade de oportunidades,
essa linha de pensamento imagina a sociedade como organismo
equilibrado, que por algumas questões conjunturais se desequilibra,
e para retomar sua forma natural basta algumas ações focalizadas,
segundo o economista. Já a concepção de realidade social utilizada
na tese para desenvolver o conceito de vulnerabilidade social
é de outra ordem. “A sociedade é desigual porque se estrutura
na desigualdade e isto tende a condicionar as decisões educacionais
das famílias. Como apresentamos na tese, não é provável que
as trajetórias escolares sejam as mesmas se há tantas desigualdades
de ordem sociodemográficas e econômicas, mesmo no caso de uma
região tão rica como a RMC”, diz o economista.
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■ Publicação
Tese: “Família,
educação e vulnerabilidade social: o
caso da Região Metropolitana de Campinas”
Autor: Sérgio Stocco
Orientação: José Roberto Rus Perez
Unidade: Faculdade de Educação (FE)
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