|
|
Diversidade na ciência é o tema
central do ciclo de palestras promovido pela PRPG
Em debate, a produção do conhecimento
MANUEL ALVES FILHO
RAQUEL
DO CARMO SANTOS
A
Unicamp promoverá, por intermédio
da Pró-reitoria de Pós-Graduação
(PRPG), um ciclo de palestras dedicado à
reflexão sobre o conhecimento e o seu modo
de produção. O evento, intitulado
"Seminários Unicamp", terá
periodicidade anual. A primeira edição,
marcada para os próximos dias 27 e 28, no
Auditório da Faculdade de Ciências
Médicas (FCM), terá como tema central
a "Diversidade na Ciência". Na oportunidade,
o público poderá acompanhar seis conferências
(confira quadro), proferidas por Pablo Kreimer,
Ilya Prigogine, Mayana Zatz, Octávio Ianni,
Carlos Vogt e Carlos Aragão de Carvalho Filho.
"Nosso objetivo é levar as discussões
para o nível mais conceitual, avançando
em relação às reflexões
do dia-a-dia", afirma o pró-reitor de
Pós-Graduação, professor Daniel
Hogan.
De
acordo com ele, diversas questões importantes
serão debatidas durante o evento. "Uma delas
diz respeito ao fato de a diversidade na ciência
nos estimular a repensar o modo como nos organizamos
para fazer essa ciência", explica Hogan. Ele
adianta que a idéia é usar a primeira
edição do "Seminários Unicamp"
para "anunciar" as conferências futuras. "Acredito
que o tema inicial poderá ser desdobrado
e aprofundado", diz. Conforme o pró-reitor
de Pós-Graduação, foi criado
um Comitê Científico para definir os
assuntos a serem abordados no ciclo de palestras,
composto pelo próprio Hogan e pelos professores
Laymert G. dos Santos (IFCH), Marisa Lajolo (IEL),
Paulo Arruda (IB), Renato Ortiz (IFCH) e Yaro Burian
Jr. (FEEC).
De acordo com o professor Oscar Ferreira Lima, assessor da PRPG, o "Seminários Unicamp" é voltado para alunos e professores da Unicamp, mas estará aberto à participação de pessoas vindas de outras universidades e/ou instituições de pesquisa. Ele destaca que as conferências apresentadas em língua estrangeira terão tradução simultânea. "Além disso, nós nos preocupamos em pedir aos palestrantes que façam uma abordagem quase em nível de divulgação, de modo a tornar o conteúdo das conferências acessível a um público heterogêneo", explica.
Os interessados em participar do ciclo de debates, que será gratuito, não precisarão fazer inscrição prévia. Os que não puderem se dirigir até o local do evento, poderão acompanhar as palestras ao vivo pela internet, no endereço www.cameraweb.unicamp.br. Ferreira Lima diz que, posteriormente, os textos das conferências serão disponibilizados na íntegra na home page da PRPG. Outras informações sobre o "Seminários Unicamp" podem ser obtidas pelo telefone 3788-5893 ou no endereço www.prpg.unicamp.br.
Vogt fala sobre a multidisciplinaridade
O
Presidente da Fapesp e professor da Unicamp,
Carlos Vogt, traz para o centro do debate a
questão da multidisciplinaridade como
uma tendência para a gestão do
conhecimento no mundo atual. Em sua palestra
"Fronteiras desaparecendo: interdisciplinaridade
como pré-requisito da produção
científica no século 21", Carlos
Vogt deverá traçar um panorama
geral do ponto de vista das ciências que
criam novos campos de pesquisa e de divulgação.
Para ele, existe uma necessidade urgente de uma revisão crítica por parte dos institutos de pesquisa para uma reorganização. Como exemplo, ele lembra a experiência positiva da própria Unicamp que adotou a estrutura de centros e núcleos interdisciplinares.
Carlos Vogt acredita que cada vez mais as disciplinas tradicionais como física, química, biologia e matemática avançam para a quebra de barreiras em campos multidisciplinares. Isto faz com que haja uma inter-relação com as ciências humanas e ciências da computação, por exemplo.
Para elucidar ainda mais a questão, o presidente da Fapesp irá recorrer aos projetos coroados de sucesso, como o caso do Mapa da Exclusão/Inclusão da Cidade de São Paulo, financiado pela Fapesp. Nele são encontrados aspectos que exemplificam a tese de Carlos Vogt. Trata-se de uma pesquisa que tem como parceiras a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Instituto Polis e que utiliza uma metodologia de análise geoespacial e tratamento matemático-computacional das informações em ambiente de Sistema de Informação Georeferenciado (SIG), que permite identificar "o lugar" dos dados nas distintas áreas da cidade e na criação de um Índice de Exclusão (IEX). Isto possibilita classificar os níveis de qualidade de vida nos diversos distritos de São Paulo.
Outro exemplo é o trabalho mantido pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo Científico (Labjor) da Unicamp sobre Ciência e Tecnologia, Comunicação e Sociedade, cujo propósito inicial é mapear o impacto da Ciência, da Tecnologia e da Inovação na sociedade, através do comportamento da mídia. Sua finalidade principal é oferecer à comunidade de pesquisadores das mais variadas áreas informações em tempo real (diárias) sobre a cobertura da mídia em C,T&I, através de um banco de dados relacional, que permita o fácil acesso à informação desejada.
|
Ianni revisita obra de Snow
Uma
das conferências que farão parte da
primeira edição do "Seminários
Unicamp" estará a cargo de um dos mais
renomados intelectuais do país, o sociólogo
e professor emérito da Unicamp, Octávio
Ianni. Ele apresentará uma nova visão
acerca do livro "Duas Culturas", publicado
em 1959 pelo físico e romancista inglês
Charles Percy Snow. Na obra, Snow inaugurou um fértil
debate sobre o distanciamento progressivo entre
as ciências naturais e humanidades, que no
seu entender provoca um empobrecimento intelectual.
O texto teve grande repercussão tanto dentro
quanto fora dos meios acadêmicos.
De acordo com Ianni, a despeito da clareza e originalidade da abordagem, Snow apenas apresentou o problema, deixando-o sem solução. "Eu retomo esse debate, mostrando que ele estava enganado. Não se trata apenas de duas culturas, mas de três: ciências naturais, ciências sociais e arte. Ou seja, três estilos diferentes de pensamento", sustenta o sociólogo. Conforme o professor emérito da Unicamp, é compreensível e até positivo que se peça um diálogo entre essas culturas. "Mas é ingênuo imaginar que elas possam trabalhar em conjunto e que tenham bases comuns", analisa.
Ianni explica que as ciências naturais atuam a partir da formalização e da experimentação, tendo como uma de suas funções a previsão. Já as ciências sociais valem-se do processo de compreensão do comportamento dos grupos humanos e da forma como se movimentam e organizam as suas atividades. "Trata-se de um sistema que considera os valores e tensões. Isso não elimina a busca pela explicação e previsão, mas o esforço maior está em compreender o poder e como as pessoas se relacionam com ele".
Por fim, surge a arte, que se mantém no âmbito das metáforas, das figuras de linguagem e das alegorias, mas que podem revelar realidades e tendências, conforme Ianni. Em sua conferência, o sociólogo também discutirá a importância dos paradigmas, tema abordado por Thomas Kuhn, considerado um filósofo da ciência, na década de 60. Conforme o autor, o progresso científico não se dá pelo simples acúmulo de conhecimento, numa linha contínua. Kuhn afirma que o avanço ocorre por meio de saltos, por revoluções. "A obra de Kuhn trata da crise do pensamento científico, uma problemática que continua importante até hoje", afirma Ianni.
Programa |
Seminários Unicamp
Dia: 27/03/2003
9:30 h: Abertura
10:30 h: Pablo Kreimer (Flacso, Buenos Aires)
La informática: Los problemas que emergen de la investigación científica y el desarrollo tecnológico en las sociedades latinoamericanas
14:00 h: Ilya Prigogine (The University of Texas at Austin)
The disappearance of frontiers in contemporary science
15:30 h: Mayana Zatz (Universidade de São Paulo)
Genetic information: the Genome as paradigm of the new conditions of the production of knowledge
Dia: 28/03/2003
9:00 h:
Octávio Ianni (Unicamp)
Two cultures: C. P. Snow revisited
10:15 h: Carlos Vogt (Unicamp)
Disappearing frontiers: interdisciplinarity as prerequisite of scientific production in the 21st century
11:30 h: Carlos A. Aragão de Carvalho Filho (IF - UFRJ)
The frontiers of Physics
|
|
|
|